Escravo da Rosa


Neruda antes de começar a semana
22 Setembro 2008, ---
Arquivado em: Literatura | Tags: , ,

Nunca fui a pessoa mais apaixonada por poesia neste mundo. Gosto de Hilda Hilst e só. Ela traduz as urgências e dores e amores como ninguém. Sem dúvida, ela é mais legal que os outros. Perdeu feio para Vinícius, que dá nome este blog, na poesia e na vida. Ah, Hilda, o mundo é melhor porque você pasou por aqui.

Enfim, tem mais gente boa neste mundo. Neruda? Não li tudo – li quase nada, na verdade. Mas tem alguma coisa nele que me desperta simpatia. E por acaso, procurando um email sobre usabilidade (é sério), achei O Teu Riso numa mensagem de uma amiga muito querida, mas que anda bem sumida. Aline, que bizarra coincidência*, é uma das pessoas mais queridas que eu conheci na Cásper. Horas de conversa sobre tcc, banca, “não gosto mais do meu livro”, “meu estágio de merda”, e tudo o mais que há no mundo. E eu sinto a maior saudade daquele tempo e do scarpin lindo que ela usava…

Ando numa fase de saudades de tudo – até saudade de amanhã, como dizia Felipe Mortara, antes de viajar.

Ah, sim. O poema de Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Ele era bem amigo de Vinícius mesmo.

*Bizarra coincidência II: ele odeia Adele, Chasing Pavements mais do que as outras. E bem essa começa a tocar agora.