Escravo da Rosa


Pedro sofre da febre dos leões.
21 Maio 2009, ---
Arquivado em: I love it, Music makes people come together, Vinil de Veludo | Tags:

LeãoDomingo a noite. À espera de Lulina, começa uma música que chamou muito minha atenção “toda vestida de chita, cheirando a cigarro paraguaio…” Cigarro paraguaio? Preciso conhecer esse cara. Fim do show, o EP Tanta Força em mãos, vamos ouvir mais de uma vez. Conclusão, chegou ao Vinil de Veludo de música brasileira.

De um papo com Leão você sai discutindo o conceito de realidade, Monet, Mondrian, mau humor e achando que “impessoalidade é uma invenção feia, castradora”. Tem toda a inflamação de alguém que tem 23 anos. Mas o meu filosofo favorito também consegue falar coisas objetivas. Numa conversa por Gtalk com Pedro, ele começa a me explicar o Leão. “Eu estou montando banda com o leão agora, eu na guitarra elétrica mais um baixista e um baterista.” E essa conversa, você lê agora.

Peraí. Quem é o leão?
É meu projeto solo. Eu chamo na terceira pessoa, confunde as pessoas mesmo. Me chame com você preferir.

Leão, você tem outra banda, certo? Que banda é essa?
A outra banda chama “Departamento Celeste” onde somos quatro: Stan Molina, Daniel Monteiro, Thiago Serra e eu, com composições de todos nós menos do Daniel que tá enrolando. Juntamos a banda no final do ano passado. Ela surgiu na verdade como um projeto solo do Stan, eu já vinha tocando em dupla com ele fazia algum tempo, acompanhando na guitarra e alguns vocais para as canções novas dele. Aí ele resolveu montar uma banda com estas canções novas, mais algumas minhas e do Thiago, que já tocava com ele nos Telepatas. Aí viramos uma banda tocando mais com o Daniel e o Thiago.

Os seus projetos são você (Leão) e a banda e só, né?
Em música sim, Leão e o Departamento Celeste. Eu tenho um problema que talvez seja comum à minha geração que é de fazer quinze mil projetos o tempo todo. Nada garante que eu não faça outro semana que vem, mas os que tenho me dedicado são esses dois mesmo.

E o que você faz da vida para ganhar dinheiro?
No momento estou tentando entrar no programa de iniciação científica da faculdade para ver se o estado ajuda um pobre jovem a seguir sonhando e a praticar ciência. Eu faço faculdade de Filosofia na USP.

Leão, como a música surgiu na sua vida?
Eu lembro desde muito pequeno andar de carro com os meus pais e eles puxavam alguma música, normalmente coisas da MPB dos anos setenta ou algo parecido. Eu lembro que quando comecei a tocar com o Stan, cantávamos no começo show “ponta de areia” do Milton, eu conhecia a música de cor, mas eu nunca tinha ouvido uma gravação dela, era de cantar no carro com os meus pais.

Mas a maneira como eu comecei a tocar é bem diferente. Lá pelos 14 ou 15 anos eu resolvi estudar música. O meu irmão já fazia conservatório, guitarra, e eu queria aprender a cantar. Entrei no conservatório e comecei a estudar canto e fazer aulas teóricas, que eu não entendia muito bem por não saber tocar nenhum instrumento e não me dedicar a isso. Fiquei lá um ano e pouco e essa é minha toda a minha base teórica de música. Um pouco mais tarde eu comecei a tocar guitarra sozinho, influenciado por algumas bandas que eu ouvia na época eu inventei minhas próprias afinações e comecei a compor.

Você falou do seu pai. Ele é músico?
Não, até onde eu sei ele não sabe tocar nenhum instrumento. Mas curiosamente no meu EP tem uma música que é referência à uma música que ele fez com um amigo dele nos anos sessenta, ele escrevia poesia na época. Hoje ele parou de escrever poesia. Ele não fala muito sobre o assunto.

Mas a influência para compor letras que rimam e bem feitas (porque eu acho bem feitas) vem daí?
Talvez sim, eu escrevo poesia desde bem novo, a maioria era ruim só para deixar claro. Mas as minhas letras são assim porque a preocupação de escrever bem já existia em mim antes da música. Quanto às rimas é sem querer.

Tem uma coisa de amor nas suas letras, mas sem ser muito romântico (já que um cigarro paraguaio e o cheiro de suor não são lá muito agradáveis, nem sexy). Porque?
Eu costumo dizer que eu só sei falar de amor, no fundo eu acredito nas minhas letras como poesia lírica mesmo. Essa preocupação de não fazer coisas tão obvias eu acho que é de todo mundo que tenta fazer algo relevante. Mas eu não defino as coisas assim: “não vou usar tal e tal verso porque já usaram antes”. Se eu traçasse as coisas pela negativa eu ia acabar virando uma cópia do avesso das coisas que não me agradam.
Desculpa pela filosofia de bar, eu me empolgo às vezes.

Mas que coisas são essas que não te agradam?
É difícil dizer. Eu não sou de ouvir muita música, de pesquisar o que está acontecendo. Quando algo me desagrada é mais de imediato. Mas em geral me desagrada quando vejo referências diretas, quando a música vira mais uma colagem da coisa que as pessoas gostam e tentam construir aquilo. Ou quando dá pra reconhecer muito claramente o que as pessoas escolheram colocar na música, você percebe que é mais um trabalho racional do que uma construção orgânica.

Você acha seu trabalho orgânico?
Não sei dizer muito bem, eu não sei se tenho distância crítica o bastante para falar “meu trabalho é isso ou aquilo”. Mas eu sei que não é uma coisa feita com muita preocupação técnica ou da forma. Eu acho importante mesmo é dizer alguma coisa. É muito triste quando vejo alguém em música que é mais um técnico do que um artista.

Como você define a musica do Leão?
Por enquanto só consegui escrever um release que me satisfez. Canções populares inéditas.

Mas eu não quero um release. Você se acha indie? Ou folk? Ou MPB, por exemplo?
Discussão complicada. Pra falar a verdade eu não sei. Eu acho que aconteceu uma febre em 2008 que de repente surgiu uma onda folk em São Paulo. Se você disser “samba é folk, você tem samba no meio da sua música” aí sou. Se você disser “você toca para um nicho específico, tem pouca gente nos seus shows e por isso é indie” então eu sou. Mas essas discussões vão longe.
Eu toco a música que venho compondo e sim, tem influência de samba e de Brasil. Mas eu acho que a maior influencia nessa música que eu venho feito não é tão claramente vista.

E qual é?
Do Bill Callahan, do Smog. Mas é uma influência, como posso dizer, mais de modo de ver o mundo e falar dele, talvez mais espiritual, do que referência musical direta.

O Pedro vai viver de música?
O Pedro não sabe nem que horas vai acordar amanhã. Mas gostaria de viver de música sim.

Qual foi a última coisa que o Leão ouviu e amou?
Sometimes I Wish We Were an Eagle, do Bill Callahan. Ouvia repetidamente a música All Toughts Are Prey to Some Beast e o último do A Silver Mt Zion, 13 Blues For 13 Moons. Ouvi bastante o último disco do Rômulo Fróes mas ultimamente parei de ouvir.

Ainda bem, né…

Que animal o Leão seria se nao fosse o rei da selva?
Acho que um bicho preguiça, são animais muito expressivos.

De quem é o cachorro que late na gravação de Descanso Semanal Remunerado?
São duas cadelas, a Maria Filomêna e a Maria Eduarda, moram aqui em casa mesmo e sempre que alguém entra em casa é aquele estardalhaço que vazou para a gravação. Foi uma decisão difícil deixar os latidos na gravação ou tirar.

Se o Leão nao fosse músico, seria roadie?
Provavelmente não, talvez um acadêmico, talvez um chapeiro. Ouvi dizer que martelinho de ouro é bem remunerado também.

O que o Leão tem a dizer para quem vai ouvir sua música pela primeira vez?
Boa sorte, tente ouvir até o final e preste atenção nas letras.


2 Comentários até o momento
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[...] com o Leão, que me deu um entrevista aí em baixo, ou neste link aqui. Lá ele fala das suas influências, me deixa falando sozinha quando menciono Rômulo Fróes e e [...]

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[...] nossa idéia foi de falar de três pequenas e lindas descobertas. Tem o Leão, que contou para a Tainá que é um bicho preguiça, a Lulina, uma letrista genial, e a Tulipa Ruiz, que tem uma voz incrível e que domina qualquer [...]

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