Escravo da Rosa


Uma antiga conversa com Gustavo Taretto, diretor de “Medianeras”

A Argentina firmou sua cinematografia nos últimos anos com trabalhos de muita qualidade e estilo próprio – não é comparável a qualquer outro latino e com diferenças entre si. E nem só de Martel, Campanella e Trapero vive o cinema do país.

Em 2011 a Argentina ganha um novo diretor de longas-metragens, Gustavo Taretto, que chega com “Medianeras” (ganhador de prêmios em Gramado e Festival de Berlin deste ano), que estreia neste fim de semana em São Paulo.

Antes de “Medianeras”, Taretto teve uma pequena, mas belíssima produção de curtas-metragens, que ganharam mostra especial no Festival Internacional de Curtas de 2008. Um ano antes, “Hoy No Estoy” abriu o mesmo festival e a diretora Zita Carvalhosa afirmou que ele era uma das grandes apostas do cinema latino.

A produção de Taretto é centrada em sua cidade, Buenos Aires, matéria prima para a poesia visual. Seus filmes falam também de problemas como solidão, falta de comunicação e encontros. Conhece relações humanas? Então, é sobre isso mesmo. E sobre essa produção de curtas, que levou a “Medianeras”, o longa, é que falei com diretor em 2008, quando a houve a retrospectiva em São Paulo e quando ainda era uma aprendiz de jornalista.

A solidão é um tema recorrente em seus filmes, junto com a cidade. Você sente a solidão urbana?

Eu acho que o tema é a cidade, e que a solidão é um mal cidades modernas. Talvez um dos mais cruéis, porque revela, como poucos, a incapacidade de se relacionar com os medos, neuroses. E a solidão mais trágica quando você está rodeado por tantas pessoas.

A vida moderna nos isola apesar de tudo ser feito para facilitar nossas atividades. Estou impressionado com essas questões e, talvez, encontrar algumas respostas fazendo esses curtas-metragens.

Por fim, como cineasta, me sinto fortemente seduzido pela observação. Sou naturalmente calmo e muito distraído nos caminhos da mente e isso me faz lidar muito bem com minha solidão.

Você sempre viveu em Buenos Aires? Como é sua relação com a cidade?

Buenos Aires me desperta grande curiosidade, principalmente depois de conhecer outras, mais ordenadas, mais previsíveis e mais bonitas.

Eu amo minha cidade, provavelmente porque eu a sinto como ela é. Depois de tantos anos convivência, começo a entendê-la e aceitá-la.

O caos é desgastante, mas muito estimulante. Você não pode baixar a guarda em Buenos Aires, não pode ter apenas um plano A. Isso mantém todos os sentidos bem alerta. E acho que por isso há tanta criatividade nesta cidade.

Em seus filmes, encontros são sempre acidentais. Por quê?

Prefiro pensar que é por acaso. E gosto de pensar que tomamos uma série de decisões diárias que nos levam ao lugar em que devemos estar e quando devemos estar.

Como faz para encontra poesia na cidade?

Nem mesmo sei faço isso. É meu ponto de vista e prefiro não racionalizá-lo.

Você fez o seu primeiro curta-metragem durante a crise econômica e política na Argentina. Como a crise tem influenciado a sua produção?

A crise é mais um limite. Para alguns criadores, são importantes e até mesmo emocionantes. No meio da crise, no momento de maior desestabilidade do país, é quando se passa meu primeiro curta-metragem [Las Insoladas, 2002]. Duas atrizes em uma laje, de 25 minutos. Custo de mil pesos. Uma cifra absurda para um curta-metragem.

Você já produziu campanhas publicitárias. Qual é a sua relação com a publicidade de hoje?

A publicidade me deu algumas lições que fazem parte do processo. Especialmente com a idéia de trabalho em equipe, de adicionar pessoas que acabam por enriquecer o filme. De resto, acho que é muito diferente e para outros fins. Quanto aos objetivos [da publicidade], os curtas não atingem nenhum.

A produção cinematográfica na Argentina é um dos mais importantes da América Latina hoje. Como você vê a produção no seu país? O que é bom e ruim?

A boa notícia é que existem muitos filmes. Em 2007, estrearam pouco mais de noventa. E a produção é heterogênea, o que também é muito bom. Não há muitos obstáculos para produzir, temos uma enorme força para isso nas condições que sejam. O problema é que nosso filme não se conecta com o público, que geralmente não dá retorno.

Aqui no Brasil, há sempre a expectativa de que um cineasta para começar a fazer curtas-metragens e em seguida, fazer longas-metragens. Você pretende mudar o formato de sua produção?

Meu mundo ideal seria fazer um longa-metragem, no ano seguinte um curta, no outro um longa, no outro um curta e assim até que se esgotem as ideias.

Você estudou cinema? Qual é sua formação?

Onde me formei realmente foi na oficina de José Martinez Suarez, agora Diretor do Festival de Cinema de Mar del Plata. Eu o visitei uma vez por semana durante 6 anos consecutivos. Apesar de já não ser mais seu assistente, seu espírito influencia meu trabalho diariamente.

Medianeras está em cartaz aqui.


1 Comentário até o momento
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Parabéns pela entrevista. MEDIANERAS foi um dos grandes filmes que assisti em 2011 e fiquei muito curioso sobre os trabalhos deste cineasta.

Comentário por valentemoana@yahoo.com.br




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